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Yoga não começa no tapete, os oito passos que ninguém te contou


Existe uma pergunta que eu faço mentalmente toda vez que alguém me diz que "faz yoga":

Qual yoga?

Não de forma arrogante. De forma genuína. Porque dependendo do que essa pessoa entende por yoga, ela pode estar falando de coisas completamente diferentes, e a maioria das pessoas que chegam até mim está falando de ásana. Das posturas. Do tapete.

E tudo bem. É por ali que quase todo mundo entra.

Mas o yoga como filosofia, o yoga como sistema completo de vida, tem oito partes. Oito degraus, como descreveu Patanjali no Yoga Sutras, um dos textos mais importantes dessa tradição milenar. E ásana, as posturas que viraram símbolo do yoga no mundo ocidental, é o terceiro degrau.

O terceiro.

Antes dele, tem dois que raramente aparecem nas aulas, nas fotos, nos cursos. Dois que, na minha visão, são os mais difíceis, e os que mais transformam.

São Yama e Niyama.



Stefani praticando yoga


O que são os oito passos do yoga

Patanjali organizou o caminho do yoga em oito etapas. Em sânscrito, ashtanga: ashta (oito) + anga (membros, partes). Não é uma sequência rígida onde você precisa terminar uma antes de começar a outra. É mais como um mapa. Você vai e volta, aprofunda em algumas partes, tropeça em outras.

Os oito passos são:

  1. Yama — como você se relaciona com o mundo

  2. Niyama — como você se relaciona com você mesma

  3. Ásana — as posturas corporais

  4. Pranayama — o controle da respiração

  5. Pratyahara — o recolhimento dos sentidos

  6. Dharana — a concentração

  7. Dhyana — a meditação

  8. Samadhi — o estado de integração plena

Cada um desses passos é uma prática. Não uma teoria, não um conceito bonito, uma prática que você aplica no dia a dia, na vida real, nas situações que mais te incomodam.

Vamos fundo nos dois primeiros.


Yama; a ética com o mundo


Yama são os princípios que organizam como você existe em relação ao outro. Como você age, fala, consome, reage. São cinco:

Ahimsa — não violência

É o mais conhecido. Mas ahimsa vai muito além de não bater em ninguém.

Violência é a palavra que você escolhe quando está com raiva. É o julgamento que você faz em silêncio quando vê alguém diferente de você. É a forma como você fala sobre você mesma quando erra. É comer de forma inconsciente, consumir de forma inconsciente, existir de forma inconsciente.

Praticar ahimsa é perguntar, antes de agir: isso causa dano? Para o outro, para mim, para o ambiente.

Não é ser passiva. Não é engolir tudo. É agir com consciência do impacto.

Satya — verdade

Satya é a honestidade. Mas não a honestidade brutal que algumas pessoas usam como desculpa para ser cruel. É a honestidade que nasce de um lugar de cuidado.

Satya começa com você mesma. Com admitir o que você sente, o que você quer, o que está funcionando ou não na sua vida. Quantas vezes a gente mente para si mesma antes de mentir para alguém?

"Eu tô bem." "Não me importo." "Não preciso de ajuda."

Satya convida você a parar de se esconder de si mesma.

Asteya — não roubar

Asteya é não tomar o que não é seu. E aqui o yoga expande esse conceito de formas que a maioria não espera.

Chegar atrasado em um compromisso é roubar o tempo do outro. Reclamar do sucesso alheio é uma forma de querer algo que não conquistou. Copiar o trabalho de alguém sem dar crédito. Consumir recursos além do que precisa.

Mas tem uma dimensão mais sutil ainda: asteya como não roubar de si mesma. Não se privar de descanso, de alegria, de cuidado. Asteya te pede que você se dê o que merece.

Brahmacharya — moderação da energia vital

Esse é o que mais gera confusão porque historicamente foi traduzido como celibato. Mas no contexto da vida contemporânea, brahmacharya é sobre gestão de energia.

Para onde vai a sua energia? Para o que você a gasta? Redes sociais que drenam, relações que esgotam, pensamentos que você fica ruminando por horas, tudo isso é brahmacharya te perguntando: isso vale a sua energia?

A prática é aprender a ser mais seletiva. A preservar o que te nutre e colocar limites no que te esvazia.

Aparigraha — não apego, não acumulação

Aparigraha é soltar. É não segurar além do necessário.

Pode ser material, acumular coisas que não usa, que não precisa, que ocupam espaço físico e mental. Mas pode ser emocional, segurar mágoas, expectativas, versões antigas de si mesma, relacionamentos que já terminaram mas que você ainda carrega.

Aparigraha é uma das práticas mais difíceis porque a mente humana tem uma tendência natural de se agarrar. De tentar controlar. De acumular como forma de se sentir segura.

O yoga pergunta: e se você confiasse mais no fluxo do que no controle?


Niyama — a ética com você mesma


Se Yama organiza sua relação com o mundo externo, Niyama organiza sua relação com o mundo interno. São também cinco:

Saucha — pureza, limpeza

Saucha começa pelo corpo, alimentação, higiene, o ambiente onde você vive. Um espaço limpo e organizado não é frescura; é uma forma de cuidar da mente. A desordem externa costuma espelhar a desordem interna.

Mas vai além. Saucha é também pureza de pensamento. É notar quando você está alimentando narrativas que te sujam, pensamentos de inveja, de autopunição, de vitimização. Não para suprimir, mas para observar e escolher de forma diferente.

Santosha — contentamento

Esse é o que mais vai contra a lógica da nossa cultura.

Santosha não é conformismo. Não é desistir de querer crescer ou melhorar. É a capacidade de encontrar paz no que é, enquanto você trabalha pelo que quer ser.

É a diferença entre correr atrás dos seus sonhos a partir de uma base de escassez, "nunca vou ser suficiente até conseguir isso", e correr a partir de um lugar de inteireza, "eu sou suficiente agora, e quero mais."

Santosha é sutil. Mas quando você começa a praticá-lo, muda tudo.

Tapas — disciplina, fogo interno

Tapas é o calor que a prática gera. A disposição de fazer o que é necessário mesmo quando não dá vontade.

Não estou falando de auto-flagelação ou de uma rotina militar. Tapas é o comprometimento consistente com o seu próprio crescimento. É acordar e praticar quando o sofá chama. É honrar o compromisso com você mesma mesmo quando ninguém está olhando.

Tapas também tem a ver com atravessar o desconforto. Com não fugir das situações difíceis que a vida traz, e que o yoga, inevitavelmente, também traz.

Svadhyaya — autoconhecimento, estudo de si

Svadhyaya é a prática do autoestudo. Conhecer a si mesma com honestidade e curiosidade, sem julgamento, sem defesa.

Isso inclui o estudo dos textos da tradição, sim. Mas inclui principalmente o estudo de você mesma: seus padrões, seus gatilhos, suas crenças herdadas, suas reações automáticas. Por que você age como age? De onde vêm as suas escolhas?

Svadhyaya transforma o cotidiano em laboratório. Cada situação difícil vira uma oportunidade de aprender algo sobre si mesma.

Ishvarapranidhana — entrega, rendição ao fluxo maior

O último dos Niyamas é o mais espiritual. É a prática de reconhecer que você não controla tudo, e se render a isso não como derrota, mas como alívio.

Ishvarapranidhana pode ser vivido de forma religiosa, como devoção a uma divindade. Mas pode ser simplesmente a disposição de confiar no processo. De fazer a sua parte com dedicação e largar o controle do resultado.

É o antídoto para a ansiedade de quem precisa que tudo saia exatamente como planejou.

E os outros seis passos?

Depois de Yama e Niyama, o caminho do yoga continua:

Ásana trabalha o corpo como ferramenta de presença. As posturas não são o destino — são o veículo. Quando praticadas com consciência, revelam onde você segura tensão, onde você resiste, onde você ainda não aprendeu a soltar.

Pranayama é o trabalho com a respiração. A respiração é a única função autônoma do corpo que também podemos controlar conscientemente, e por isso é uma ponte entre o voluntário e o involuntário, entre o consciente e o inconsciente.

Pratyahara é o recolhimento dos sentidos. Aprender a não ser arrastada por tudo que chega de fora. É a prática de criar uma vida interior estável em meio ao barulho do mundo.

Dharana é a concentração, a capacidade de manter a mente em um ponto. No mundo que vivemos, isso virou uma das habilidades mais raras e mais valiosas que existem.

Dhyana é a meditação. Não como técnica, mas como estado. Quando a concentração se aprofunda a ponto de o observador e o observado se tornarem uma coisa só.

Samadhi é o estado de integração plena. Onde não há mais separação entre você e o que você experimenta. É descrito como o objetivo final do yoga, mas também como algo que aparece em flashes durante qualquer prática genuína.


Yoga como estilo de vida — o que isso significa na prática


Quando você entende o yoga como esse sistema completo, ele para de ser uma atividade que você faz três vezes por semana e vira um ângulo de visão que você leva para tudo.

Para a forma como você reage quando alguém te decepciona. Ahimsa. Satya.

Para a forma como você fala com você mesma quando trava. Svadhyaya. Santosha.

Para as escolhas que você faz sobre o que consome, com quem convive, onde coloca seu tempo e atenção. Brahmacharya. Aparigraha.

Não é que você acorda iluminada e nunca mais erra. É que você começa a ter uma referência. Um norte. Quando você reage de um jeito que não gosta, você tem um sistema que te ajuda a entender por quê, e a escolher diferente na próxima vez.

Isso é o que muda a vida. Não a postura mais avançada. Não a sequência mais bonita.

O tapete é o início. Os princípios são o caminho.

E o yoga, de verdade, acontece quando você levanta do tapete e vai viver.



Stéfani Rezende é instrutora de yoga e terapeuta integrativa, fundadora do Samambaia Yoga e Terapias Integrativas em Brumadinho, MG. Trabalha com Biopsicologia, uma vertente do Tantra Yoga (escola Ananda Marga) que integra corpo, mente e emoção, em aulas presenciais e online.

Quer aprofundar sua prática? Conheça o [Clube Samambaia], uma comunidade de estudo e prática mensal.

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